Acrobata – Marjorie Bier

Eu devia ter uns seis anos quando entrei pela primeira vez em um circo.

O circo Moscow nasceu, certa tarde, da boca da minha terceira professora. Era um mágico barco perdido no oceano e repleto de luzes. Havia um par de trompetistas que se diziam guerreiros e palhaços aborrecidos com suas cornetas de papelão. No alto, bandeiras esfarrapadas ondulavam anunciando o maior espetáculo da terra. A lona era desastradamente remendada, como os leões, muitos deles na fila da aposentadoria. Mas ela me contou que aquela lona se faria castelo e que aqueles animais cansados seriam, no passar das horas, os reis uníssonos daquela selva. Uma senhora rechonchuda anunciaria a festa com suas lantejoulas brilhantes enquanto voaria no trapézio a um metro do chão.

Foi então que me imaginei acrobata. Aos seis anos, saltei de verdade, lá do alto, em minha primeira acrobacia. E quebrei as costelas.

E assim, depois, seguiu a vida. Nas horas, longas horas de luta pela liberdade de pensamento, e nos amores: sempre saltando, voando e quebrando as costelas.

Quem pisa a primeira vez em um circo não o abandona jamais.

2 Respostas para “Acrobata – Marjorie Bier”

  1. renato schorr Disse:

    é claro, somos os próprios palhaços que rimos das micagens dos outros.

  2. claudino de lucca Disse:

    Quando os clarões da lua cheia cair sobre as Missões e junto estiver a figura de uma índia que foi queimada junto ao pé de porangá – preste atenção: eu estou por perto.

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